5.3.08

De sons e o silêncio

Na semana passada, a Nina Horta publicou um texto lindo, lindo em sua coluna de quinta na "Folha".

NINA HORTA
Nhoct, ploct, tchiiii, tloc-tsssss...
O espremedor de laranja só pára de zoar quando acabam as laranjas e as mexericas

PARA MIM é fácil reconstruir o mundo pelos cheiros; já pelos sons, tenho mais dificuldade. Estou com saudade de Paraty e me dei ao luxo de ficar lembrando do acordar sossegado, sem despertador, uma vassoura raspando a terra dura e a pedra do terraço. Como fundo, a cachoeira que não pára nunca, o grito agudo de uns pássaros matutinos e uma cortina impenetrável de zumbido de insetos.

Mais longe, a lenha crepitando. Mais perto, o acendedor de gás, umas tampas de panela desmontando, o leite fervendo na panela.

A casa é de madeira, e os sons atravessam as frestas como as andorinhas das cornijas. Um cachorro se coça na porta da cozinha e sai guinchando com um grito abafado de alguém. As galinhas e os galos se lixam para os que dormem e põem a boca no mundo, anunciando o dia e o ovo.

A geladeira tem um zumbido peculiar, a torneira pinga e, de repente, o telefone toca, o coração dispara, deve ser o namorado da menina. É esse barulho de telefone que começa a nos preparar para os aviões que passam baixo e os helicópteros das férias.O espremedor de laranja só pára de zoar quando acabam as laranjas e as mexericas. E então se escuta o capim sendo ceifado, uma ou outra conversa de cavalos e de burros, abelhas, grilos, cigarras.

A mesa de café está sendo posta, os passos descalços vão daqui para lá com as xícaras e os pires. Na televisão, em São Paulo, de vez em quando aparecem as vinhetas para surdos. Qualquer barulho difícil -e quase todos os barulhos são difíceis de traduzir- eles escrevem "borborinho" (sic). Complicado, para os surdos, carros que passam, pessoas que conversam, fuga do lugar do crime, seis mulheres conversando, é tudo "borborinho".

Fico pensando se o sítio também não tem sons muito destacáveis, difíceis de serem separados uns dos outros, é só um burburinho que não atrapalha ninguém. Dá para entender a água fervendo que explica o café, a máquina de moer os grãos ajudando na interpretação. Somos a audiência, os atores, os compositores nesta sinfonia doméstica doce e ritmada que não tem fim.

Os sons da natureza são harmoniosos, a chuva, quando cai num escândalo, dá medo, mas não é feia de se escutar, tem lá sua dignidade. Mas uma música a toda altura dentro de um barco no mar muito calmo e azul dá tontura. Quem sabe deveria haver uma faculdade que nos ensinasse a arquitetar os sons de uma cidade?

E ainda vai ter mão de pilão socando alho, faca afiando na pedra, feijão sendo catado, o processador virando as torradas em farinha de rosca, o bife chiando na frigideira, a casca do ovo se quebrando na tigela, o ovo sendo batido, a torneira pingando, a taioba batida com o facão e a tábua da salsa e cebolinha soando desequilibrada sobre a pia.

A banana vai fritar na manteiga para a torta, a porta do forno quebrada vai bater com força, se Deus quiser vai ter nhoct, ploct de jabuticaba, coco verde cortado para beber a água, o estalar da mordida da maçã, a melancia pesada rolando pelo chão, o som certeiro do facão eliminando a coroa do abacaxi, o tchiiii do frango grudando na panela, a massa do pão sovado, a prateada escamação do peixe, o estalo da ostra, um sugar humano de perninha de siri, outro de chupar caroço de manga, a salsicha boa que estala ao ser mordida, o tloc-tsssss da lata de Coca.

A banana não faz barulho, descasca baixinho, mas o doce se arrebenta em bolhas. É bom, assim. Tem algumas religiões que procuram o silêncio e será que conseguem?

Podíamos falar menos, evitar aquela gritaria histérica de propaganda tipo Casas Bahia, sorteio de barra de ouro, os oops de Big Brothers desassuntados, mas, não sei não, le silence éternel de ces espaces infinis m'éffraie.


**

Cada pessoa percebe o som (e o silêncio) de forma diferente: com eles, os pequenos barulhos que se fazem e faltam, tenho me reconstruído. Não escuto mais as sentenças complexas que vinham da gatinha Marieta quando eu chegava em casa, nem das súplicas que subiam de volume quando cozinhava aves, nem do prrrrrrrrrrr gostoso quando estava no colo, nem do miado leve e curto que pedia atenção enquanto eu fingia dormir, naquele momento em que o mundo é só sons e sentidos.

Em compensação, a irmã Kika, antes eclipsada, agora se arrisca mais. É voz diferente, meio rouca. À noite, sem ninguém por perto, mia mais alto procurando a irmã que não está. Aos poucos aprendo esse novo vocabulário e suas sutilezas. Ela aprende o silêncio do dia e a dialogar comigo à noite.

4 comentários:

Agdah disse...

É o rítmo da vida...

laila disse...

Cris q bo q etsa de volta...e q perola da grande Nina! bjs

Dani R. disse...

Oi Cris...
já tinha passado aqui hoje e lido o texto, só não deu tempo de comentar... =D lindo msm... eu, particularmente, adoro o silêncio, mas aqui onde moro a barulheira impera! E não são barulhos agradáveis... ainda mais com construção de um novo prédio ao lado do meu =/

Eu te linkei porque gostei do blog msm!! Ng vive só de moda, né??Rs.. textos bem escritos são sempre bem-vindos...

Obrigada pelos elogios... e saiba que tentarei colocar novidades bonitinhas sempre..rs.. espero que alguma coisa te agrade em breve!!

HUm... tive que deletar um post onde havia um comentário seu, falando sobre as coisas que comprou cmg e talz (deletei pq vendi a peça)... aí, coloquei o comentário naquela parte lateral, vc viu?? Tem algum problema?? Era isso que queria te perguntar... pq tipo, serve como uma qualificação e eu gostei dele =D

Bjinhos..
Obrigada de novo.

mariliafig disse...

Quando leio a Nina é tão mágico que ouço os pássaros ou a lenha crepitando, sinto o cheiro do alho socado no pilão e ouço também o silêncio... é reconfortante!!!
beijo