7.1.08

Reciclagem

"O pato vinha cantando alegremente
'Quém, quém!'
Quando o marreco sorridente pediu
Para entrar também no samba."

Crepe de pato com camembert
- 1 xícara de farinha de trigo
- 2 ovos
- 1/2 xícara de leite desnatado
- 1/2 xícara de água + um tantinho, se precisar
- 1/4 de colher de chá de sal
- 2 colheres de sopa de manteiga derretida
- Carne desfiada do pato assado para a ceia de reveillón :)
- Nacos de camembert
- Sálvia fresca

Bata os ovos e misture com a farinha. Acrescente aos poucos o leite e a água, depois o sal e a manteiga, até a massa ficar uniforme.

Se tiver crepeira, bem; se não, jogue em uma frigideira antiaderente quente, girando-a até a massa tomá-la toda - quanto mais fino o crepe, melhor. Deixe dois minutos de cada lado e, se quiser, coloque uma folha de papel-toalha entre cada um.

Recheie enquanto quente, de preferência, para o queijo derreter. Tempere com azeite, folhas rasgadas de sálvia e o que mais quiser.


3.1.08

Macacos me mordam!

O bioantropólogo britânico Richard Wrangham defende que viramos Homo sapiens devido à... cozinha! Ele acredita que os cérebros aumentaram quando, pelo cozimento, a digestão ficou mais fácil e as calorias se proliferaram. Brilhante, não?

Uma reportagem sai na edição deste mês da revista "Scientific American", versão EUA. Mas o site traz uma entrevista com Wranham.

And you believe cooking with that fire spurred the development of modern humans.
Here's the way I tend to ask the question: I tend to think of the advent of cooking as having a huge impact on the quality of the diet. In fact, I can't think of any increase in the quality of diet in the history of life that is bigger. And repeatedly we have evidence in biology of increases in dietary quality affecting bodies. The food was softer, easier to eat, with a higher density of calories—so this led to smaller guts, and, since the food was providing more energy, we see more evidence of energy use by the body. There's only one time it could have happened on that basis; that is, with the evolution of Homo erectus somewhere between 1.6 [million] and 1.8 million years ago.


PS: A Folha também publicou um texto sobre o tema, anos atrás (link para assinantes).

A vitória é doce

Trocentos anos atrás, eu nem sabia cozinhar direito, mas conseguia fazer caramelo que era uma beleza, sem medida nem nada. Enquanto minha mãe penava, eu fazia a calda do pudim com um pé nas costas. Escolhia até a quantidade, a cor, se seria feita na panela ou no microondas, tudo na base da beiçada. Ou seja, um espetáculo.

De repente, não mais do que de repente, um dia acordei e descobri ter perdido a mão. Passei os últimos cinco anos só fazendo farofa atrás de farofa, quilos de açúcar jogados no lixo. Não adiantava seguir receita: simplesmente não saía. Minha mãe, que aprendeu a fazer a calda no microondas, não podia acreditar no que escutava.

Em 2008, resolvi não ser mais tiranizada pela maldição do caramelo e encarei o desafio de frente. Não saiu na primeira tentativa, nem na segunda. Na terceira, já suando frio, com os olhos vidrados na panelinha enquanto os segundos pareciam horas, vi aos poucos a calda chegar num ponto bom, dourar linda. Vim, vi e venci.

Salada de camembert e nozes caramelizadas
- Folhas verdes
- Palmito
- Um bom camembert
- Nozes inteiras
- 250 gramas de açúcar
- 250 ml de água
No dia anterior, ferva os palmitos para evitar o botulismo, deixe-os esfriar e guarde-os na geladeira com água, sal e um pouco de vinagre branco.
Numa panela, coloque o açúcar e a água numa panelinha e leve ao fogo baixinho, para derreter o açúcar. Quando isso acontecer, aumente um pouco o fogo, fique de olho e não mexa. De vez em quando, passe um pincel com água nas bordas, para dissolver os cristais. Quando chegar na cor de caramelo, desligue o fogo e tire do fogão - cuidado porque o caramelo ainda escurece um pouco mais. Mergulhe as nozes, tire-as com cuidado com um garfo e deixe-as secando em um prato de porcelana limpo e seco.
Monte a salada com as folhas verdes, fatias de camembert, os palmitos cortados em rodelas e as nozes. Tempere com um bom azeite, sal e a melhor pimenta que tiver em casa.

2.1.08

Favas contadas

Faço aniversário no iniciozinho de janeiro, então ano novo tem duplo sentido para mim: todos aqueles balanços sobre o que passou e o que virá vêm sempre em dobro.

Contudo, não contava com um inferno astral ao quadrado, que resolveu se manifestar em todo seu esplendor no dia 31 de dezembro, durante a feitura da ceia - afinal, como bem lembrou o namorido, o mês foi tão cheio de responsabilidades e compromissos que nem tive tempo antes para deixar qualquer coisa sair do prumo.

Começou com a indefinição sobre a sobremesa, em que as favas de baunilha compradas a preço de banana deveriam ser usadas. Queria ovos nevados, namorido não gosta. Ele queria um pudim de baunilha francês, eu achei bobo. Depois de dias de debate, resolvemos apostar no semi-freddo com torrones do Jamie Oliver.

No dia anterior, compramos o torrone errado (deveria ser crocante, não molengo) e o creme de leite da marca que odiamos, pois só havia ele. Tampouco achamos o pistache sem sal recomendado. Em cima da hora, resolvemos pular para a próxima receita e fazer o semi-freddo com figos e mel. Corre namorido atrás de figos frescos e secos, toca eu separar os ingredientes.

Batemos tudo certinho e, na hora de misturar, o creme começou a talhar e azedar! Teoria do namorido é que figos são ácidos, mas, poxa, carambolas! (Pelo menos, a foto ficou bonita.) Jogamos tudo fora.

Depois de muito mal humor (meu) e desespero (de ambos), ele disse para tocar os ovos nevados, paciência. No que coloco o leite para ferver, ele talha também - azedo! A vontade de chorar foi forte.

Respirei fundo, corri para a padaria e comprei mais leite, ovos e açúcar. Coloquei uma música bem calma, limpei a bagunça anterior e me concentrei. Três favas de baunilha e quatro horas depois, a uruca e o inferno astral se afastaram. O resultado foi satisfatório: o creme ficou muito doce para o meu gosto, mas acabou providencial para afastar a ressaquinha de champagne...

Ovos nevados
- 4 ovos
- 1 fava de baunilha
- 2 1/2 xícaras de leite integral
- Uma pitada de cardamomo em pó (se tiver grãos, use 2 a 4)
- 1/2 xícara + 1 colher de sopa de açúcar (foi demais para meu gosto: melhor 1/3 ou 1/4 de xícara)
- 1 pitada de sal
- Nozes quebradas

Abra a fava com uma faca afiada, no sentido longitudinal, e raspe com cuidado as sementinhas. Coloque-as (sementes + fava) numa panela com o leite e o cardamomo. Ferva, desligue e tampe bem, com um pano por cima, por 30 minutos. Tire a fava (e as sementes de cardamomo, se as utilizou) e ligue novamente o fogo baixo, em ponto de quase fervura constante.

Bata as claras em neve com o sal. Quando estiverem quase no ponto de claras duras, acrescente a colher de açúcar e bata por mais um ou dois minutinhos. Jogue grandes colheradas das claras no leite, uma a uma. Deixe cozinhar 1 a 2 minutinhos de cada lado, retire com uma escumadeira e reserve sobre papel-toalha. Desligue o fogo e deixe o leite amornar.

Faça o creme: bata as gemas com o restante do açúcar até esbranquiçar. Acrescente devagarinho o leite morno, sem parar de bater. Leve essa mistura ao fogo novamente, em fogo médio, e mexa constantemente com uma colher de pau. Quando começar a ensaiar engrossar, abaixe o fogo e mexa vigorosamente até ele engrossar mesmo, quando o fundo da panela começa a aparecer. Desligue o fogo, mexa por mais uns minutos (para o creme não pegar no fundo) e deixe esfriar.

Coloque o creme no recipiente em que vai servir a sobremesa. Disponha as claras por cima, polvilhe as nozes, cubra com filme-plástico e deixe na geladeira por pelo menos 30 minutos antes de servir.

29.12.07

Quem vê cara não vê coração

Numa escala em Paris, casal amigo, dois queridíssimos, nos abasteceu de queijos franceses, comprados do queijeiro favorito, da estirpe que só abre as portas quando a temperatura cai. (Guilherme e Bia, abençoados!)

Isso significa que temos em casa um verdadeiro camembert - não esses "tipo camembert" que encontramos pelos olhos da cara nos freezers de São Paulo.

Mas isso significa também que nossa cozinha fede horrores! Poderia jurar que minhas gatas mataram a empregada e esconderam pedaços do corpo na gaveta de legumes. Mas vale a pena enfrentar o cheiro forte: o queijo é cremoso, saboroso, excepcional. Se tiverem a oportunidade de comprar um desses (espero que pessoalmente, em Paris!), não percam.

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Nem tenho mais cara para justificar minha longa ausência. Juro que foi excesso de trabalho e atribuições cotidianas, não desistência, tá? Simplesmente não cozinhei mais, um horror.

Já 2008 começa com novas e luminosas perspectivas. A família se inspirou no blog e me deu várias ferramentas para experimentar novos pratos. Até compramos uma nova câmera para melhorar as fotos daqui.

Então desejo a todos um ótimo ano novo, cheio de sabor e alegrias, tantas quantas vocês me proporcionaram em 2007.